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24/03/2008
1Morrer deve ser assim. Nestes últimos dias, quando começo a prestar atenção em algo, por curiosidade própria ou involuntariamente, como nossos instintos estão acostumados a captar, de repente me encontro em transe, não por efeito de entorpecentes ou qualquer outra substância do bem ou do mal, destas não me arrisco, simplesmente minha mente se desvia do que era até então sensato, me aparece a imagem de uma pessoa aleatória na minha vida e um slide show é ativado, não destes que estamos acostumados a ver, mecânicos, ordenados e previsíveis, a consciência humana ainda não é capaz de agir assim tão friamente, o que me vem é um tumulto de lembranças, a maioria reais, algumas distorcidas e outras que nem sequer existem, veja só que atrevimento nosso considerar como lembrança algo irreal que desejaríamos que acontecesse. Assim, de repente e sem motivo aparente para os olhos, se é que a emoção precise da razão para isso, me encontro a chorar, às vezes a sorrir, ou nem um nem outro, é nestas horas que descobrimos de uma vez por todas o que sentimos por cada pessoa, quem desperta ou não isto ou aquilo, e ainda assim ficamos sem saber o que esse sentimento pode significar realmente. Com suas inexplicáveis variações, este é o tipo de loucura que deve nos atacar durante nosso último segundo de vida, digo isto por palpite, fosse por experiência morto eu estaria. As pessoas passam por nossas vidas como foguetes, algumas chegam no meio e ficam até o fim, outras que estiveram desde o início se vão na metade do caminho, e não há nada que se possa fazer sobre isso, podemos mudar nós mesmos que o mundo não vai mudar, talvez o mais sensato seja nos conformarmos e acelerarmos este processo, sermos os que chegam e os que vão quando bem convém, afinal como podemos dizer que amamos alguém quando há centenas de outras pessoas no mundo que amaríamos mais se as conhecêssemos, mas talvez esta também não seja a melhor alternativa, ou talvez devêssemos simplesmente sentir mais e pensar menos.
Quando algo significativo está programado, como minha viagem, fazemos uma contagem regressiva, e enquanto este marco não chega os dias vão simplesmente sendo riscados, descartados, é como se estivéssemos nos preparando para a morte, contando um dia a menos ao invés de um a mais. Lembro-me de um desses dias, provavelmente o mais insignificante de todos, daqueles que até numa contagem regressiva esqueceríamos de riscá-lo. O dia passava calmo e sem alegria, chovia forte, lá estavam centenas de pessoas na rua mas eu não as via, éramos todos figurantes que obedeciam a uma tempestade, regulávamos nossa velocidade de acordo com a intensidade da água que caia, estávamos todos ensopados e com vergonha disso. A avenida estava cheia de carros e as pessoas esperavam que eles parassem, claro, assim que o semáforo ficasse vermelho, quando finalmente ficou. A chuva começou a ganhar força e por instinto, pressa ou senso comum, não importa agora saber o motivo, comecei a correr, lutando para chegar logo em casa e esperar que mais este dia passasse, ou menos ele restasse para a viagem. Eu tinha acabado de chegar no outro lado da avenida quando me encontrei pensando em algumas das pessoas que vou, palavra forte esta, deixar. As lembranças desapareceram voando quando meu pé não encontrou o chão que esperava estar ali, e num longo e interminável deslize, como se ainda houvesse a esperança de evitar o tombo, caí de costas numa enorme poça. Senti aquela água gelada agarrar minha coluna e fechei os olhos por alguns segundos, reflexo este que fazemos quando percebemos alguma sensação momentânea, por mais suave que seja, servindo para refletir o quão frágeis podemos ser. Quando abri os olhos, não vi nada além da brancura do céu nublado. Então, senti a chuva cortante cair violentamente sobre meu rosto como se quisesse atravessá-lo e, pela primeira vez naquele dia, me senti bem.
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#fuckyeah
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